Eu já imaginava que sairia de lá com o coração sensibilizado com as histórias que ouviríamos, mas Deus resolveu falar comigo de outro jeito.
Estávamos na capela para algumas orientações, quando um jovem de 13 anos saiu da sala chorando.
Fui até ele e questionei o motivo da emoção, e ele então descarregou em mim toda tristeza, quase revolta, com a "injustiça de Deus".
Não era uma rebeldia injustificada.
Ele argumentou comigo que crianças não deveriam ter câncer, elas não faziam nada para merecer aquilo. Que os mais velhos já tinham vivido suas vidas, mas que os pequenos ainda não tinham feito nada, sendo assim, por que ele deveria acreditar nesse Deus "que quase não dá sinais" e permite o sofrimento das pessoas?
Eu o respondi com um sorriso que nenhuma resposta seria suficiente para saciar seus questionamentos.
Mas lhe falei do cuidado de Deus, do livre arbítrio, expliquei que todos estávamos suscetíveis à doença e outros males.
Claro que fiquei balançada, porque certas coisas fogem da nossa lógica e razão.
Poucos minutos depois, enquanto todos os adolescentes devoravam a mesa de lanches, esse menino foi no pátio e buscou duas crianças e sua mãe (todos portadores de câncer) e os levou pro refeitório. Pegou refrigerante e encheu um prato pra eles. Depois, no momento dos depoimentos, ele correu pra buscar água e entregar pr'aqueles que estavam contando suas vidas e se emocionaram.
Quando tive oportunidade, o chamei e disse:
- Você disse que Deus quase não dá sinais, não é mesmo? Ele talvez não fale em voz alta ou faça coisas extraordinárias o tempo inteiro, mas hoje, Deus deu sinais da Sua presença através de você.
Ele retrucou:
- Não. Isso é educação.
Eu respondi:
- Meu bem, você foi quem mais questionou Deus, mas hoje, você foi mais cristão do que todos nós.
Você entendeu a proposta dEle...
"Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes." (Mateus 25,40)

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