quinta-feira, 12 de março de 2015

Sobre as rosquinhas de leite condensado...

Eu tinha 12 anos quando ela foi morar junto do papai do céu.
Eu já era grandinha pra entender sobre a morte. Sabia que ela não voltaria e que eu só a veria quando eu morresse também, mas mesmo assim eu não quis chorar. Consolei minha mãe, irmãs, tias e até cantei no velório dela. Na hora do sepultamento, não quis ficar ali perto, então fui caminhar pelo cemitério acompanhada do meu tio preferido, olhando as fotos das lápides e fazendo cálculos pra ver quantos anos aquelas pessoas tinham vivido. rs

Alguns meses depois, estava no meu quarto quando me veio a lembrança de uma música:

"Não sei porque você se foi
quantas saudades eu senti
e de tristeza vou viver
aquele adeus não pude dar..."

Me lembrei da minha Vó Maria. E então o choro veio.
Todo mundo já tinha vivido o luto de sua perda, mas eu não.
Eu tinha engolido o choro alguns meses antes, mas naquela hora, ele voltou à garganta.

Chorei, chorei e chorei.
Cantei pra ela e comecei a reviver todas as minhas memórias numa tentativa absoluta de guardar cada detalhe pra sempre.

Me lembrei da sua pele cheia de sardas, suas unhas de esmalte, seu cabelo meio branco, meio tingido.
E embora eu seja alérgica, eu pude sentir saudade do cheiro de cigarro misturado ao seu perfume francês. Aquela voz rouca e aquela tosse insistente na madrugada, parecia canção aos meus ouvidos naquele instante.
Me lembrei de suas ligações, das reclamações constantes, mas de como ela dizia que me amava.

E claro, me lembrei da rosquinha de leite condensado.
Minha vó fazia uma rosquinha, aparentemente normal, mas que nenhum chef de cozinha poderia imitar:
ela deixava meio crua de propósito e mergulhava numa tupperware branca cheia de leite condensado.


Recordei-me de uma vez que chegamos na chácara pra visitá-la, e como sempre meu pai buzinava no golzinho amarelo desde a porteira até a porta da casa. E lá vinha Dona Maria com os olhos cheios d'água de saudade. Corremos até ela e perguntamos:

-Vó, tem rosquinha?
- Ah. Num vai pedir bença, não? Só veio por causa da rosquinha? A vó não fez dessa vez.

E com cara de decepcionadas, eu e minhas irmãs pedimos bença e entramos.
E lá dentro estava a surpresa... ela tinha feito a rosquinha.
E como sempre a geladeira estava recheada: lata de marrom glacê, bandeja de uva passa e geleia de mocotó.

...

Ainda guardo essas lembranças, e me apego a elas com uma saudade sufocante.
Que vontade eu tenho de abraçar Dona Maria, de ouvir sua voz, sentir seu cheiro e beijar sua pele enrugada.

Se estivesse viva, hoje levaríamos um bolinho pra cantar parabéns pra ela.
Provavelmente, eu faria uma piada com as velinhas dos seu sessenta e nove anos e diria que ela já estava com noventa e seis. Ela daria uma risada rouca e me mandaria comer logo.


Vó Maria, hoje gostaria que soubesse que estou feliz! Que ainda estou cantando na Igreja, que ainda faço piadas e ainda sou aquela menina sapeca. Que estou tentando viver uma vida santa pra garantir a vida eterna.

E não esquece, Dona Mariinha: quando eu chegar no céu, já vou perguntar pra Nossa Senhora se tem rosquinha de leite condensado, e estou certa de que ali vou te encontrar novamente.

Um comentário:

  1. Ainda tenho minhas duas avós, mas, os sentimentos são os mesmos em relação aos bolos fritos de polvilho que minha avó paterna faz e a festa que minha avó materna faz cada vez que vamos a visitar. É lindo esse amor, é linda essa saudade, são lindas as avós...

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